Resta pouco a dizer... numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos, por tanto tempo, e instalou-se num único quarto, na outra margem. Pela única janela avistava , rio abaixo, a extremidade da Ilha dos Cisnes. Para sofrer menos, ele tinha apostado na estranheza. Quarto estranho. Cenário estranho. Sair para onde nada tinha sido partilhado... foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Dia após dia, viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com o seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. No cabo, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como alegres remoinhos, os dois braços fluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Nos seus sonhos... ele tinha sido avisado sobre essa mudança. Tinha visto o querido rosto e ouvido as palavras indizíveis "Fica onde, por tanto tempo, fomos só os dois... a minha sombra confortar-te-á." Podia ele, agora, voltar atrás? Reconhecer o seu erro e voltar para onde outrora, por tanto tempo, eles tinham sido só os dois? Só os dois, tudo partilharam. Não! O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia, alguma vez, ser desfeito. Por ele, sozinho.
Nesse extremo, o seu velho terror pela noite voltou, tanto tempo depois como se nunca tivesse existido. Sim... tanto tempo depois como se nunca tivesse existido. Agora, redobrados os terríveis sintomas, descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro... Noites em claro, doravante o seu quinhão, como quando o seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do raiar do dia.
Resta pouco a dizer... uma noite, em que estava sentado, a tremer, com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e disse-lhe:
-"Fui mandado por...(e aqui ele nomeou o querido nome) a fim de te confortar."
Depois, do bolso do seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até ao raiar do dia. Desapareceu, em seguida, sem uma palavra. Algum tempo depois, ele reapareceu, à mesma hora, com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo, sentou-se e leu-o até ao fim, durante toda a longa noite. Desapareceu, em seguida, sem uma palavra. Assim, de tempos a tempos, de improviso, ele reaparecia para reler, até ao fim, a triste história e adormecer a longa noite. Depois, desaparecia, sem uma palavra. Sem, jamais, trocar uma única palavra, eles tornaram-se como um só.
Veio, enfim, a noite em que, fechado o livro aos primeiros raios de luz, ele não desapareceu, mas ficou sentado, sem uma palavra. Finalmente, ele disse:
-"Fui avisado por...(e nomeou o querido nome) de que não devo voltar mais. Vi o querido rosto e ouvi as palavras indizíveis: 'não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder'."
Assim, uma última vez relida a triste história, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz... da rua, nunhum ruído de acordar. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis à luz do dia, ao ruído do acordar. Que pensamentos? Quem sabe! Pensamentos? Não! Pensamentos não... abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá o quê... abismos de consciência... De inconsciência.
Lá, onde nenhuma luz pode chegar, nenhum ruído. Assim, ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história, uma última vez contada.
Nada resta a dizer...
Nada resta a dizer.
Samuel Beckett
(tradução livre e, provavelmente, muito abaixo da versão original... vale a tentativa de partilha)